Silêncio.

(o texto Silêncio, que aqui segue, inspirou a produção de uma música dentro da proposta do Projeto BunkerZen, recomenda-se a leitura deste acompanhada do track disponível em: http://soundcloud.com/bunkerzen/bunkerzen-silence)

Há horas em que o silêncio é o melhor companheiro. O problema são as horas em que o silêncio é o único companheiro. No vácuo que preenche minha mente, tento amontoar coisas de forma desesperada para ganhar algum peso, ou isso, ou os ventos de uma rotina pré-programada para os próximos 3600 segundos me levam para os desertos inférteis escondidos dentro de mim. Lá se passam eles, no longo tilitar dos relógios. E novos logo chegam para a cobertura. Na angústia de curar o silêncio espero um tiro, um tiro de barulho ensurdecedor. Coloco todas as minhas esperanças que este, sem piedade, me deixe surdo ao ponto de não mais enxergar apenas trincheiras devastadas a minha frente e morto, o suficiente, para não me intoxicar pelo gás mostarda matinal. Não sei sua trajetória. Não sei sua frequência. E assim me mantenho na inércia do meu próprio destino, mutável a cada ranger de engrenagens de uma bomba que não para de levar sangue aos meus ouvidos sedentos por algo harmônico. Por enquanto, barulho, muito barulho para lavar a alma e esquecer o que sou, ou era.

Posted in Atemporal | Tagged as: , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Cordeiro.

Café fraco e muito açúcar. Pupila dilata. Não o suficiente. As pegadas e carcaças do fim de semana ainda sedimentam em minha mente. E lá vão, e devem, ficar cuidadosamente guardadas. Chove lá fora. Não o suficiente. Voraz como um cão raivoso, o café liquidei. Jamais vi um cão pessoalmente. Sempre quis. Dizem terem sido extintos no século passado, eu tento acreditar. Isso não é importante, pelo menos agora. Automatizado estamos. Sinto-me – humano a cada dia, + robótico a cada minuto, – vivo a cada svedberg. Bom sinal não deve ser, mas convenhamos que nossa espécie não é motivo de orgulho há séculos. Talvez a mecanização possa trazer certa liberdade. Liberdade relativa, admito. Nada como caminhar pelos infinitos campos verdes ao som da chuva gelada que explode como milhões de little boys sobre seus ombros. Mas, que campos? Que chuva? Belíssimos campos de cinzas e pólvora são nosso legado, deliciosamente banhados por intermináveis chuvas ácidas que lavam nossa mente, alma e corpo, tão profundamente que podem atingir nossos pulmões, fígado e rins. Liberdade agora é fuga da realidade. Seu corpo, seus ossos, seus músculos, suas articulações trabalham. Sua mente, não. Tenta fugir. Tenta viajar. Tenta se libertar. E talvez consiga. Indo longe o suficiente para rever os campos verdes que nunca viu e sentir a chuva escorrer pelo seu rosto sem ter seu crânio exposto para toda a impiedosa atmosfera que nos rodeia. O bater das máquinas constante e cadenciado some. Silêncio é luxo para os mais nobres e nem eu, mero e descartável mortal com minha mente alada, posso impedir que uma sirene comece a esfaquear meus tímpanos. Mais uma chuva de metal e pólvora se aproxima. A esteira pára. Todos param. Agrupados como cordeiros, seja lá o que isso for, seguem para seus abrigos monocromaticamente coloridos. Isolamento acústico? Isolamento racional. Talvez a música das explosões e o dançar dos estilhaços possa embelezar meu dia e aliviar a dor da minha mente. Tenho vontade. Não são muitos passos. Nem muitas calorias queimadas. Olho fixamente para a porta. Respiro lenta e profundamente. Suspiro. Um passo. Dois. Crio coragem. Não suficiente. Sento e espero o céu desabar mais uma vez.

Posted in Amanhã | Tagged as: , , , , , , , , , , | Deixe um comentário